Wednesday, February 3, 2010

Este trimestre, desde a primeira semana de aulas, que isto anda intenso. Intenso demais. A cadeira que mais gosto, e mais relevante para a tese, pouco ou nada me tenho dedicado, pois as outras roubam-me o tempo todo.
299 B (b de "boring) conseguiu tornar as terças-feira nas novas segundas-feira. Cada vez que venho dessa aula, enfio-me directamente na cama, e quase que me faz rezar por ter sobrevivido e pedir a Zeus que me dê forças para chegar à próxima semana.
E depois há a cadeira que estou em tirar em Womens Studies, com o título pomposo e importante de "women, violence, war, resistance in conflict zones", com um dos grandes nomes feministas do século, a feminista, aquela que já se justifica em andar numa universidade destas. Mas a média por semana são vinte capítulos sobre violência e genocídio, e o feminismo tanto me dá adrenalina, como me dá cabo do sistema nervoso, tornando as quintas-feiras sinónimos de gota-de-água, de choradeira, e uma garrafa de vinho ao jantar, em que quase sempre envolve a pergunta "mas porque raio não fui para enfermagem ou porque não me casei e tive cinco filhos; doutoramento para quê?"

Entretanto, ontem a minha avó partiu, e até agora não consegui escrever umas linhas, ou articular um som sobre isso. Ando a receber uma porção de mensagens e respondi quase a nenhuma, mas li todas. Estou a processar. E este post serve mais para sossegar progenitores e irmãs, que acho que estão à espera que me passe, que tenha uma reacção mais sonora, interactiva. Mas não tenho. Não me apetece francamente falar. Sinto-me como se tivesse a olhar para um aquário, a pensar se mergulho. Todos me dizem coisas tão diferentes e tão parecidas, e eu não sei se concordo com nenhuma. Percebo que não haja uma fórmula mágica de apaziguar, também não sei como se faz, mas não estou mesmo numa de debate.

A diferença é que a minha avó vivia num conto de fadas, e passava isso para o papel. Eu vivo na hiper realidade, e perdi a minha contadora de histórias de sempre, sem sequer me ter despedido dela. Sem a ter obrigado ver o "Persepolis".
É isso mesmo; a única coisa que de momento me ocorre é perguntar como raio nunca lhe mostrei o "Persepolis". Esta pergunta é tola, mas diz tanto. Diz tanto sobre nós as duas. Se ela tivesse visto ou lido o livro, perceberia o que quero dizer. E ia se rir com todo aquele sorriso, aquele riso de avó, que lhe preenchia a cara toda, o riso de avó, de minha avó.

Perdi isso, mas acho que no fundo há muito que sabia que ela já cá não estava, quando escolheu desligar a sua imaginação. Se calhar, é por isso mesmo que não me apetece falar. Porque a minha avó que partiu ontem, já só era corpo, não era a minha Rosinha. E isso é um pontapé no estômago.